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Este relatório apresenta uma síntese detalhada da Aula 08 do curso ministrado por Fernando Horta, intitulada “Capitalismo de Vigilância e Desigualdades Digitais”, fundamentada nos materiais da fonte selecionada.

Capitalismo de Vigilância e Impactos Globais

Este documento analisa a transição para uma nova ordem econômica baseada na extração de dados comportamentais, as desigualdades decorrentes desse processo e o impacto ambiental da infraestrutura digital.

Recapitulação: O Paradigma da Abundância

A produção de riqueza na era digital continua ligada à “propriedade produtiva”, mas esta agora é o próprio meio digital, composto essencialmente por informação. Enquanto o capitalismo do século XX operava sob o paradigma da escassez, o mundo digital vive o paradigma da abundância. Nesse novo cenário, surge uma “geopolítica das aprendizagens” que substitui a divisão mundial do trabalho tradicional, integrando capital público e privado através da “educação para o mercado”.

O Capitalismo de Vigilância

Baseado na obra de Shoshana Zuboff, o Capitalismo de Vigilância é definido como uma nova ordem econômica que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas de extração, previsão e venda.

Os principais pontos desta lógica incluem:

  • Superavit Comportamental: A geração de valor não vem mais apenas da produção de bens, mas do comportamento dos usuários, transformado em dados (“data exhaust”) para análise e aprimoramento de serviços
  • Arquitetura Global de Modificação de Comportamento: Uma lógica econômica parasítica onde a produção é subordinada à modificação do comportamento humano
  • Ameaça à Soberania: É descrita como uma expropriação de direitos humanos e um “golpe vindo de cima”, destituindo a soberania dos indivíduos em favor de concentrações sem precedentes de riqueza e poder

A Guerra das Patentes e Geopolítica

A disputa pelo domínio tecnológico é evidenciada pelo número de pedidos de patentes em 2021.

  • Liderança Global: Os Estados Unidos lideram com 46.533 pedidos, seguidos pela Alemanha (25.969) e Japão (21.681). A China apresentou o maior crescimento anual, com 24%
  • Principais Empresas: Huawei (1º), Samsung (2º) e LG (3º) são as maiores aplicantes
  • Posição do Brasil: O Brasil ocupa a 37ª posição, com 181 pedidos, apesar de um crescimento de 13,1%
  • Áreas de Disputa: As patentes concentram-se em tecnologias críticas como IA, Cibersegurança, Blockchain, Condução Autônoma e Computação Quântica

Desigualdade Digital e Material

A desigualdade no mundo digital manifesta-se em diversas dimensões:

  • Social: Falta de letramento digital e tecnologias inclusivas
  • Econômica: Controle concentrado da tecnologia e falta de investimento em educação
  • Geográfica: Disparidade acentuada entre o Norte Global e o Sul Global, e entre áreas urbanas e rurais
  • Cultural: Domínio de idiomas globais (inglês) como barreira de acesso
  • Comportamental: Medo, preconceito ou falta de motivação para o uso da tecnologia

O Digital e o Meio Ambiente

Contrariando a ideia de uma “nuvem” imaterial, a atividade digital possui um custo ambiental elevado:

  • Emissões de CO2: A atividade diária na internet gera bilhões de gramas de CO2. O envio de e-mails produz 1,2 trilhão de gramas de CO2 por dia (equivalente a dirigir até a lua 12.000 vezes), enquanto buscas no Google geram 700 milhões de gramas diárias
  • Lixo Digital (E-waste): Os maiores produtores de lixo eletrônico por habitante são Noruega (28,5 kg), Reino Unido (24,9 kg) e Dinamarca (24,8 kg)
  • Rotas de Descarte: Existe um fluxo de exportação de lixo eletrônico das regiões desenvolvidas (América do Norte e Europa) para países do Sul Global (África e Sudeste Asiático)

Tecnologia e Desenvolvimento Sustentável

Apesar dos impactos negativos, a ciência de dados e a analítica podem contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU:

  • Saúde: Mapeamento de usuários para prever a propagação de doenças infecciosas
  • Fome e Pobreza: Monitoramento de preços de alimentos e padrões de gastos via celular para indicar níveis de renda
  • Educação: Uso de relatos de cidadãos para entender taxas de evasão escolar
  • Energia e Água: Sensores inteligentes para reduzir o desperdício e garantir suprimento

Conclusão: Perguntas Geradoras

A aula encerra questionando se o mundo digital contribui para aumentar ou diminuir as desigualdades globais e qual o papel do trabalho humano dentro dessas transformações. A soberania digital depende de entender se a inserção tecnológica aumenta ou diminui a dependência em relação ao Norte Global.