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Este relatório sintetiza os conteúdos da Aula 09 do curso ministrado por Fernando Horta, intitulada “Tecnologia, geração de valor e geopolítica”, com foco na materialidade da infraestrutura digital e nas novas hierarquias de poder global.

A Computação em Escala Planetária e “The Stack”

Fundamentado na obra de Benjamin Bratton, o relatório destaca que a computação em escala planetária deve ser compreendida como uma sucessora dos modos tradicionais de governança geográfica (terra, mar e ar). Esse novo modelo, chamado de “The Stack” (A Pilha), cria um espaço geopolítico que cruza as divisões entre o mundo sólido e o fluido, o material e o informacional, e o real e o simulado.

A Materialidade do Digital: Cabos e Data Centres

Um dos pontos centrais da aula é a desconstrução do mito da “nuvem” como algo imaterial.

  • A Nuvem é Física: Ela possui uma existência física concreta, composta por uma vasta rede de cabos de fibra ótica submarinos e pontos de troca de internet que estabelecem a coerência territorial das propriedades
  • Demanda de Energia: O conjunto de informações operando no planeta exige uma demanda massiva e real de energia
  • Concentração de Data Centres: A infraestrutura física está altamente concentrada. Em 2020, os Estados Unidos detinham 39% dos grandes centros de dados do mundo, seguidos pela China (10%), Japão (6%) e Alemanha (6%)

Semicondutores: O Coração da Soberania Técnica

A produção de semicondutores (materiais condutores elétricos com controle de condução controlado) é descrita como o nível mais crítico da materialidade digital.

  • Monopólio Tecnológico: A produção está concentrada em pouquíssimas empresas. Atualmente, apenas duas fundições (TSMC e Samsung) operam na “fronteira de ponta” da tecnologia de nós (nodos de 5nm e 3nm)
  • Controle de Vendas: As sedes dos fabricantes de dispositivos eletrônicos que controlam as vendas globais estão majoritariamente nos EUA (33%) e na China (26%)
  • Complexidade: O chip envolve uma parte física (material base), química (caminhos eletroquímicos) e de engenharia (trilhas e rupturas lógicas)

Hierarquia de Linguagens e Economia da Atenção

A soberania também se manifesta na capacidade de dominar as linguagens de computador, que variam em níveis de interação:

  • Desde as linguagens de máquina (binário que interage com o hardware) e linguagens de baixo nível (Assembly), até linguagens de alto nível (C, C++) e scripts (Java, PHP)
  • Domínio das Plataformas: Na economia da atenção, poucos sites dominam o tráfego global. Google e YouTube sozinhos atraem mais de 127 bilhões de visitas mensais, superando a soma dos 48 sites seguintes na lista dos mais visitados

O Brasil e o Risco do Subdesenvolvimento Digital

O relatório encerra com perguntas provocativas sobre a posição brasileira no cenário internacional:

  • Geração de Valor vs. Consumo: O Brasil está desenvolvendo caminhos para gerar valor ou está limitado ao consumo não-soberano de tecnologia e dados?
  • Subdesenvolvimento Digital: Discute-se se o acesso e a democratização digital são suficientes ou se o país está caindo em um novo tipo de subdesenvolvimento por não possuir tecnologia autônoma
  • Economia Laranja: A necessidade de explorar a criatividade e o letramento digital como ferramentas de desenvolvimento

Conclusão

A soberania digital no século XXI depende do entendimento de que o poder não reside apenas nos dados, mas no controle físico da infraestrutura (cabos e centros de dados), na capacidade de fabricação de hardware crítico (semicondutores) e no domínio das linguagens de programação que estruturam o mundo moderno.